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08/05/2018
Há 30 anos, os resíduos da Celulose Riograndense viram matéria prima

A empresa Vida, fundada por Lutzenberger, preserva até hoje os princípios que transformaram a planta de celulose de Guaíba em uma das com maior índice de reciclagem de resíduos no mundo

Ao olhar a fábrica da CMPC Celulose Riograndense funcionar a pleno vapor, não se imagina que, enquanto o grande picador de toras da empresa trabalha, ele produz não apenas os cavacos que se transformarão nas 1,8 milhão de toneladas de celulose que a indústria produz anualmente, mas também aciona uma cadeia de produção de insumos para a agricultura e paisagismo. Esta iniciativa teve pai: o ambientalista brasileiro José Lutzenberger. Ainda nos anos 80, Lutzenberger visitou a então fábrica da Riocell que inaugurava sua estação de tratamento de efluentes, após anos de luta ambiental para melhorias na fábrica de celulose.

No ano de 1982, o ambientalista foi apresentado, então, para uma iniciativa da própria indústria de construir uma estação de tratamento de efluentes líquidos, com primário, secundário e terciário - coisa que até então nenhuma outra fábrica de celulose no Brasil (e a maioria no Mundo) tinha nesta plenitude -, e os filtros e precipitadores nas chaminés. A partir daí, Lutzenberger passou a ministrar palestras de educação ambiental em reuniões internas da empresa. Foi o início de uma colaboração intensiva que buscava achar meios de aproveitar, para fins agrícolas, os resíduos orgânicos, como o lodo biológico do tratamento dos efluentes líquidos, as cascas de eucalipto e os resíduos minerais com potencial uso como corretivos de solos. 

Paralelo a isso, Lutz também fez um fascinante trabalho paisagístico, criando um parque ecológico no aterro contíguo às instalações da fábrica, nas margens do lago Guaíba, utilizando adubos orgânicos da compostagem dos resíduos para recuperar o solo local.  Hoje, na Celulose Riograndense - ao contrário do que ocorre na maior parte das fábricas no mundo -, os resíduos orgânicos, ao invés de serem depositados em aterros, são transformados em húmus, um substrato agrícola utilizado em hortas, culturas de hidroponia e pomares.

À frente deste trabalho, há 30 anos, está a empresa Vida Desenvolvimento Ecológico, fundada por José Lutzenberger e contratada pela CMPC para cuidar da destinação dos resíduos industriais sólidos. Uma Central de Reciclagem de Resíduos Sólidos foi instalada no interior de Eldorado do Sul, em parceria com a CMPC Celulose Riograndense. A Central é composta por duas áreas: uma no Horto Florestal José Lutzenberger e a outra no Horto Florestal Boa Vista, com área útil total de 67 hectares.

Após a ampliação da fábrica da CMPC em 2015, a geração mensal de resíduos passou a cerca de 50 mil t/mês – até então era de 20 mil t/mês. A reciclagem feita pela Vida evita o aterro de 600 mil t/ano de resíduos sólidos gerados pela CMPC, que estariam inutilizando áreas importantes na região em que a empresa atua. A produção de fertilizantes orgânicos e/ou substratos ainda diminui consideravelmente a pressão por "terra preta" / “terra de mato” extraída de ecossistemas naturais, contribuindo com sua preservação. Além disso, há os benefícios sociais e econômicos: o tratamento e a reciclagem de resíduos da CMPC geram 180 empregos diretos.

Os produtos obtidos do reaproveitamento de resíduos fabris fornecem insumos para a agricultura e para indústrias de 190 municípios (95% deles do RS, 4% de SC e 1% de PR e SP), fertilizantes orgânicos e corretivos de solos para 1.220 clientes, como agricultores, paisagistas, supermercados, agropecuárias, e ainda atendem a 80 clientes de indústrias de transformação.

O índice de reciclagem obtido na parceria CMPC/Vida – mais de 99% dos resíduos gerados – promove o retorno ao ciclo produtivo de milhares de toneladas de subprodutos e insumos para os mais diversos usos, contribuindo para a busca de um desenvolvimento em bases sustentáveis em nosso Estado.

O ciclo da reciclagem

A CMPC Celulose Riograndense tem 220 mil hectares de eucalipto cultivados que, após processados, resultam em celulose. Esse processo gera diversos resíduos nas diferentes etapas de fabricação.

Da picagem e lavagem de toras de eucalipto resultam o cavaco – que é a matéria prima da celulose – e cascas e serragem que são reciclados pela Vida. A serragem é comercializada para fabricação de placas de madeira e para uso em caldeiras de biomassa.

O lodo proveniente da estação de tratamento de efluentes e as cascas de eucalipto são compostados e, depois de alguns meses, transformam-se em adubos orgânicos. O humoativo e a casca compostada comercializados pela Vida servem para uso doméstico e para produtores agrícolas de larga escala.

No forno de cal, são gerados a lama de cal e o dregs e grits, que são comercializados como corretivos de solo. Produtores rurais de todo o Estado se abastecem deste insumo.

As cinzas de carvão mineral provenientes da caldeira de força da fábrica são utilizadas como insumo para fabricação de cimento. A cinza pesada e o lodo da estação de tratamento de águas são utilizados na recuperação de áreas.

A CMPC também é um belo exemplo na reciclagem de lixo, pois toda a fábrica – dos escritórios e refeitórios à produção - está engajada na coleta seletiva: as aparas e sucatas (papel, vidro, metal, etc.) são destinadas pela Vida às indústrias de transformação e a fração orgânica do lixo é compostada na Central  de Eldorado do Sul.

O quadro abaixo apresenta a soma dos volumes tratados e reciclados nos últimos 30 anos: